Por que alguns de nós conseguem persistir mesmo depois de sucessivos insucessos? Por que alguns concurseiros conseguem voltar para a “fila” depois de uma reprovação? Por que alguns candidatos se mantêm firmes na busca dos seus sonhos enquanto outros desistem logo que surge a primeira tentação ou a primeira dificuldade? Como algumas pessoas conseguem resistir a todas as distrações e estudar por longas horas mesmo em condições as vezes menos favoráveis do que as dos concorrentes? Seria o autocontrole um poder superior herdado ou algo que pode ser aprendido?

Gostaria de tentar responder a essas perguntas tendo por base as conclusões do estudo conduzido pelo renomado psicólogo Walter Mischel, 86 anos, pesquisador da Universidade Colúmbia, em Nova York, EUA. Ele começou a sua pesquisa sobre o autocontrole há mais de 50 anos, em casa, observando o comportamento das próprias filhas, quando as três tinham entre 2 e 5 anos de idade. Mischel percebeu que, quando ia ao mercado, uma delas, a de 4 anos, costumava fazer um verdadeiro escândalo sempre que queria alguma coisa, e em geral ela queria “para já”. Walter começou a retardar a satisfação do desejo dela, prometendo que, quando chegassem a casa, a filha poderia escolher algo melhor do que o que tinha visto no mercado. Funcionou. E assim começou o maior estudo de que se tem conhecimento sobre o autocontrole.

Com o propósito de aplicar a metodologia científica para confirmar suas observações, o Dr. Walter desenvolveu o “Teste do Marshmallow. Trata-se de um dos experimentos mais importantes realizados até hoje para identificar o que leva algumas pessoas a driblar as tentações melhor do que outras e qual o tipo de estratégia que é mais eficaz para ajudá-las a controlar os impulsos.

No teste, o professor Mischel recrutou um grupo de crianças (16 meninos e 16 meninas) na faixa dos 4 aos 6 anos de idade e as colo- cou em uma sala, sentadas de frente para uma mesa onde havia um prato com um marshmallow. O cientista explicou que sairia da sala por alguns minutos e que as crianças podiam comer imediatamente o marshmallow que estava no prato ou aguardar que o homem re- tornasse à sala para ganharem o dobro do doce. As crianças foram, então, deixadas sozinhas, mas uma câmera oculta registrou a reação de cada uma delas.

O resultado foi pura agonia. Só de ver o comportamento daqueles meninos e meninas, podia-se sentir a enorme ansiedade deles. Para alguns, foi uma verdadeira tortura mental. E o experimento levou a várias conclusões. Constatou-se, por exemplo, que, a partir de 4 anos de idade, as crianças têm mais autocontrole: do grupo observado, os meninos e meninas que tinham 4 anos ou mais foram os que optaram por não comer o doce imediatamente. Mas o mais interessante é que as crianças que participaram do experimento foram acompanhadas ao longo dos anos seguintes, e justamente aquelas que aguardaram mais tempo antes de comer o doce foram as que no futuro ingressaram nas melhores escolas e, depois, nas melhores universidades. Concluiu-se que elas tinham autoestima mais alta, o que garantiu que se tornassem adultos mais bem-sucedidos profissionalmente. Em contraposição, os meninos e meninas que conseguiram segurar o desejo por menos tempo em geral eram classificados pelos pais como crianças problemáticas e se comportavam mal na es- cola. Além disso, se caracterizavam por ter índice de massa corporal mais alto e autoestima mais baixa. Ao longo dos anos, alguns deles tiveram envolvimento com drogas e passagens pela polícia.

Marshmallow_test_1

Assista em: http://bit.ly/marshteste

 

Durante o teste do marshmallow, o que pareceu fazer a diferença entre o grupo de crianças que preferiram esperar a recompensa maior e o grupo de meninos e meninas mais afoitos foi que aquelas encontraram uma estratégia para se distrair: ora viravam as costas para a mesa, ora falavam sozinhas, ora cantavam, ora brincavam com o doce de alguma forma. Esses garotos e garotas simplesmente desenvolveram uma estratégia melhor para lidar com a situação. Pode-se concluir, portanto, que o autocontrole pode ser aprendido, adquirido.

O psicólogo Mischel explica que a área do nosso cérebro denominada sistema límbico é a responsável por regular impulsos básicos e emoções essenciais para a sobrevivência humana, como medo, raiva, fome e desejo sexual. É esse sistema que diz: “Vá, vá!”. Trata-se de algo inconsciente. Precisamos controlar esses impulsos se desejarmos, por exemplo, parar de beber álcool ou de assistir a televisão, se quisermos seguir uma dieta até o fim ou voltar a estudar. Esse autocontrole é determinante, por exemplo, para a decisão de desistir de passar em um concurso público ou de perseverar, seguindo em frente, resoluto.

Ainda segundo o pesquisador, o autocontrole se baseia na interação entre duas partes do nosso cérebro, que ele chama de “quente” e de “fria”. A parte quente é impulsiva, simples e de acionamento automático. A fria é mais ponderada, complexa e de ativação lenta. O autocontrole nos permite refletir: “Penso, logo posso mudar o que sou”. Para desenvolver essa habilidade, se hoje penso em desistir de estudar para concurso público, devo me lembrar, por exemplo, das vantagens que a carreira pública me propiciará ou, por outro lado, da tristeza que é testemunhar as condições de vida dos meus colegas que têm um subemprego na iniciativa privada.

O Dr. Mischel dá um exemplo prático de estratégia para um estudante se manter firme nos estudos: ele deve pensar com determinação que, quando for, por exemplo, 10 horas da manhã, pegará um livro ou uma videoaula e começará a estudar. Deve visualizar bem essa ima- gem e, quando o relógio marcar 10 horas, precisa efetivamente pegar o livro e começar a estudar. Quanto mais repetir isso, melhor.

O fato é que tudo aquilo que treinamos bastante tem grande capa- cidade de estimular a parte fria do cérebro e, por consequência, neutralizar nossos impulsos mais quentes. Quanto mais ensaiarmos algo, mais os planos se tornarão automáticos e, ao mesmo tempo, menos penosos. No nosso contexto, se um concurseiro está firme na meta de passar em concurso e tem treinado bem o autocontrole, sempre que for convidado, por exemplo, para ir a uma festa, já terá a resposta pronta: “Não posso sair, pois estou me preparando para conseguir uma vida melhor”.

Quando se trata de estudar para concurso público, podemos fazer a seguinte analogia inspirados pelo teste do marshmallow: em vez de receber uma gratificação instantânea (no teste, um marshmallow; na vida, sair para se divertir, por exemplo), é preferível estudar e abdicar do lazer por um tempo, para no futuro garantir prêmio em dobro (no teste, dois marshmallows; na vida, tempo, tranquilidade e dinheiro para fazer tudo de que se gosta). De maneira figurativa, o doce re- presenta uma remuneração maior, uma melhoria expressiva na qualidade de vida e a estabilidade, entre outros benefícios e vantagens que só encontramos na carreira pública. Gosto muito deste provérbio japonês, que tem tudo a ver com a nossa conversa de hoje: “Treine enquanto eles dormem, estude enquanto eles se divertem, persista enquanto eles descansam e, então, viva o que eles sonham”.

É bom saber, com base nas conclusões da pesquisa do Dr. Mischel, que as habilidades de autocontrole podem ser aprendidas, aprimora- das, treinadas e exploradas, independentemente da nossa capacidade nata ou da situação enfrentada. Isso vale especialmente para os concurseiros que se sentem mais “enferrujados”, aqueles que estão retomando os estudos depois de alguns anos “fora da fila”. Se é o seu caso, saiba que você tem, sim, o poder de criar mecanismos de autocontrole para persistir em seu projeto de estudos e de mudança de vida.

Por isso, quando estiver de cabeça quente e com vontade de desistir dos seus sonhos, quando for tentado pelos convites que o afastam da concretização dos planos, quando for confrontado com notícias ruins que podem desestabilizá-lo, quando a ansiedade da véspera da prova lhe assombrar, respire fundo, respire novamente, respira até estar com toda sua atenção focada apenas no ar que entra e sai de suas narinas, perceba o ar entrando e saindo, a temperatura, o ruído que ele faz; imagine aquele sentimento ruim flutuando para longe em balões de gás, conte até cem e ative o sistema frio do cérebro para controlar os seus impulsos mais agonizantes. Lembre-se do motivo pelo qual você embarcou nesta missão e foque nas vantagens de ser nomeado para um cargo público.

Paixão e entusiasmo, apoiados em bom senso e em persistência, são as qualidades que mais conduzem ao sucesso. TENHO CERTEZA QUE VOCÊ VAI CHEGAR LÁ!

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